O tema da bienal Anozero, Curar e Reparar, é uma proposta de muitas possíveis entradas.

Curar refere-se a cuidado, à possibilidade de exercer um cuidado que recupera, o que implica necessariamente uma condição de fragilidade, do próprio ou de outro. Há na palavra cura uma doença implícita, mas sobretudo uma prática recuperadora, o exercício de um restauro, ou a restituição de um organismo à sua condição.

Reparar, por seu turno, tem uma miríade de conotações possíveis: em português quer dizer arranjar, consertar, recompor. Quer também dizer aproveitar, compensar, restaurar, tudo processos económicos que implicam uma determinada conservação. Mas, em português, o termo reparar tem ainda um outro conjunto de signicados que implicam tomar atenção, ver com acuidade, atentar, prestar atenção; enfim, uma disponibilidade para o mundo, que advém da possibilidade de focar o que está perante, desacelerar o tempo e não opinar.

Esta teia de ecos foi o mapa que permitiu ir encontrando artistas que, de múltiplas formas, procuravam essa impureza inerente à recuperação de qualquer coisa que, já existindo, seja como um engrama, um problema, uma possibilidade de redenção ou uma deformação, necessitava de ser cosida, suturada, remendada. Enfim, reparada.

A bienal não parte, portanto, do princípio de que a arte cura. Em si, a arte não cura nada. Também não revoluciona, nem rompe, nem corta, mesmo que finja fazê-lo: encena, por muitas formas, esses processos e, no melhor dos casos, propõe-nos que reparemos.

A proposta da bienal foi, portanto, de se situar nos antípodas de um pensamento radical, de uma proposta que se reivindicasse da raiz, da origem ou do apagamento, da limpeza ou de qualquer purismo. Há um bolor moral na radicalidade que foi o ponto do qual esta proposta se pretendeu desviar a partir de um trabalho dos artistas sobre a memória — a própria, a coletiva, a ficção da coletividade. A proposta que construímos parte desse propósito: há qualquer coisa que pode ainda ser arranjada, mesmo que pela exposição de uma ferida.

O segundo ponto de partida da bienal foi a cidade e os seus espaços, para definir uma exposição que atravessasse vários locais, mas mantendo-se uma exposição. A construção de um percurso que partisse da Baixa e subisse até à Universidade, atravessando o circuito patrimonial, que, passando pelos dois edifícios do Círculo de Artes Plásticas, atravessasse o rio e subisse até Santa Clara. E aí, a revelação do Mosteiro de Santa Clara-a-Nova constituiu um desafio e um fascínio que não podia ser recusado, quer pela qualidade arquitetónica e patrimonial, quer porque devolve o olhar sobre a cidade, uma vez mais, para reparar nela com distância.

Delfim Sardo, Curador-geral
Luiza Teixeira de Freitas, Curadora-adjunta